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  • Alice Ball: A Química que Transformou o Tratamento da Lepra

    Alice Ball: A Química que Transformou o Tratamento da Lepra

    Alice Augusta Ball foi uma química afro-americana cujo trabalho produziu o primeiro tratamento eficaz para a doença de Hansen, também conhecida como lepra.

    Uma Cientista com uma Formação Excepcional

    Edifício histórico no campus da Universidade de Washington
    Edifício histórico no campus da Universidade de Washington. Foto: Sammi Brie / CC0

    Ball nasceu em Seattle, Washington, a 24 de Julho de 1892, filha de James Presley Ball e Laura Louise Ball. O pai era editor de um jornal, fotógrafo e advogado, enquanto a mãe tinha trabalhado como fotógrafa. Destacou-se em ciências na Seattle High School e concluiu os estudos em 1910.

    Na Universidade de Washington, Ball obteve uma licenciatura em química farmacêutica em 1912 e uma licenciatura em farmácia em 1914. Durante os estudos, publicou, com o professor de farmácia Williams Dehn, um artigo de 10 páginas, «Benzoylations in Ether Solution», no *Journal of the American Chemical Society*. A publicação fez dela uma das primeiras mulheres afro-americanas a publicar numa importante revista científica.

    Depois de se formar, Ball recebeu ofertas de bolsas de estudo em várias Universidades. Escolheu a Universidade do Hawai, onde concluiu um mestrado em química em 1915 e tornou-se a primeira mulher e a primeira afro-americana a receber esse grau na instituição. Mais tarde, foi nomeada a primeira docente de química do sexo feminino da escola.

    Óleo de Chaulmoogra e um Problema Médico Urgente

    No Hawai, a investigação de pós-graduação de Ball examinou os constituintes químicos e o princípio activo da kava, *Piper methysticum*. Os seus conhecimentos de química levaram-na a contactar Harry T. Hollmann, ligado à Estação de Investigação da Lepra e ao Hospital de Kalihi, no Hawai.

    Hollmann procurava ajuda para melhorar o uso terapêutico do óleo de chaulmoogra, há muito utilizado contra a lepra, mas com resultados inconsistentes. O óleo podia ser difícil de tolerar devido ao sabor amargo e às dores de estômago. Tomado por via oral, podia causar náuseas e vómitos. Injectado na sua forma original, podia provocar lesões dolorosas sob a pele.

    O desafio terapêutico era extremamente importante porque a doença de Hansen era alvo de forte estigma. Os doentes eram frequentemente isolados à força em povoações remotas, onde as condições podiam ser terríveis. Por isso, um tratamento eficaz poderia significar mais do que o alívio da doença: poderia oferecer uma saída do isolamento para toda a vida.

    O Método Ball

    Balanças e instrumentos científicos antigos numa vitrina de laboratório
    Balanças e instrumentos científicos antigos numa vitrina de laboratório. Foto: LukaszKatlewa / CC BY 4.0

    Ball desenvolveu um processo químico que isolava e modificava os ácidos gordos do óleo de chaulmoogra. O o resultado era um composto solúvel em água que poderia ser injectado.

    Este foi o avanço essencial. Os ésteres etílicos que Ball utilizou permitiram que o tratamento fosse absorvido pela corrente sanguínea de forma segura e eficiente, ultrapassando os problemas de viscosidade e fraca absorção que tinham limitado a utilização anterior do óleo de chaulmoogra. O seu trabalho criou uma forma injectável do óleo que se tornou o tratamento mais eficaz para a lepra até à década de 1940.

    O processo viria a ser conhecido como o «Método Ball». Em 1918, um médico do Hawai relatou no *Journal of the American Medical Association* que 78 doentes tinham tido alta do Hospital de Kalihi depois de serem tratados com as injecções. Em 1920, as autoridades de saúde havaianas referiram que muitas pessoas tratadas com o Método Ball podiam regressar a casa, em vez de permanecerem em quarentena toda a vida.

    Uma Descoberta Perdida de Vista

    Alice Ball / Foto: See page for author, Public domain, via Wikimedia Commons

    Ball morreu em Seattle a 31 de Dezembro de 1916, aos 24 anos, antes de publicar as suas conclusões. A certidão de óbito original não identificava a causa da morte.

    Após a sua morte, Arthur L. Dean, químico e presidente da Universidade do Hawai, deu continuidade ao trabalho e publicou os resultados sem atribuir crédito a Ball. Chamou à técnica o «Método Dean», até que Hollmann identificou o papel de Ball no trabalho.

    Estudos posteriores e o reconhecimento institucional restauraram o legado de Ball. A Universidade do Hawai só reconheceu o seu trabalho na década de 1990. Em 2000, a universidade homenageou-a com uma placa junto de uma árvore de chaulmoogra atrás do Bachman Hall. Em 2007, o conselho da universidade atribuiu-lhe uma Medalha de Honra.

    Um Lugar Duradouro na História da Medicina

    O Método Ball acabou por se tornar obsoleto do ponto de vista médico após o desenvolvimento da monoterapia com dapsona, em 1946. Ainda assim, a sua importância histórica permanece clara. O trabalho de Ball marcou um ponto de viragem entre a medicina botânica inicial e a química farmacêutica moderna.

    O seu método melhorou os resultados clínicos de milhares de doentes em todo o mundo. É também o feito de uma jovem química cujo contributo científico demorou a receber reconhecimento, mas cujo trabalho ajudou a transformar o tratamento da doença de Hansen.

    A história de Alice Ball liga a química, a saúde pública e o reconhecimento. Com apenas 24 anos, deixou um método que deu a muitas pessoas a oportunidade de sair do isolamento e regressar a casa.


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  • Kimchi: A História de um Alimento Coreano Fermentado

    Kimchi: A História de um Alimento Coreano Fermentado

    O kimchi é um acompanhamento tradicional coreano feito de vegetais salgados e fermentados, sobretudo couve-chinesa ou rabanete coreano.

    Consumido com quase todas as refeições coreanas, é um elemento essencial da gastronomia coreana, mas também um testemunho de conservação de alimentos, adaptação sazonal e trabalho partilhado. As suas muitas formas utilizam uma grande variedade de vegetais e outros ingredientes.

    A Fermentação como Forma de Conservar a Colheita

    Antes dos frigoríficos, conservar alimentos era essencial quando era difícil obter vegetais frescos durante os longos meses de inverno. A conserva de vegetais permitia prolongar o seu período de consumo, e o kimchi era preparado no inverno, fermentando os vegetais e enterrando-os no solo em recipientes tradicionais de cerâmica castanha chamados *onggi*.

    Esta prática tem raízes históricas profundas. O *Samguk Sagi*, um registo histórico dos Três Reinos da Coreia, menciona frascos de conserva usados para fermentar vegetais, indicando que estes eram habitualmente consumidos nessa época.

    O kimchi tornou-se comum durante a dinastia Silla, entre 57 a.C. e 935 d.C., à medida que o budismo se difundia e favorecia um estilo de vida vegetariano. Nos séculos seguintes, os vegetais fermentados e salgados continuaram a ser alimentos sazonais importantes. Um poema do letrado Yi Gyubo, do século XIII, mostra que o kimchi de rabanete era comum em Goryeo, reino que existiu entre 918 e 1392.

    A fermentação é central para o carácter deste alimento. Na produção de kimchi, as bactérias lácticas passam gradualmente a dominar o processo de fermentação, sendo o lactato o produto final da sua fermentação. A temperatura, o pH, a concentração de sal, os microrganismos, as matérias-primas e o oxigénio podem influenciar a fermentação e a sua duração. O processo pode demorar entre dois dias e três semanas.

    Um Alimento Moldado pelo Clima

    Vale montanhoso coreano coberto de neve, com estrada e edifícios
    Vale montanhoso coreano coberto de neve, com estrada e edifícios. Foto: Katsujiro Maekawa on flickr This photo was taken with Samsun… / CC0

    Os métodos tradicionais de armazenamento do kimchi revelam até que ponto este alimento foi moldado pelas condições sazonais da Coreia. O kimchi de inverno, chamado *gimjang*, era guardado em grandes recipientes de fermentação *onggi* colocados no solo. Isto ajudava a evitar que congelassem no inverno e mantinha os recipientes suficientemente frescos para abrandar a fermentação durante o verão.

    Os recipientes também podiam ser guardados ao ar livre, em plataformas especiais chamadas *jangdokdae*. Enterrá-los ajudava a evitar que congelassem no inverno e a abrandar a fermentação no verão. Neste sentido, o recipiente, o solo e a estação do ano faziam todos parte da prática de preparar kimchi.

    Hoje em dia, é mais comum usar frigoríficos domésticos próprios para kimchi.

    De Vegetais Salgados a Centenas de Variedades

    O kimchi não corresponde a uma receita fixa. Existem centenas de tipos, distinguidos pelos seus vegetais principais e outros ingredientes. As variedades podem diferir muito no sabor, nas propriedades bioquímicas e nutricionais e no tempo de conservação.

    A couve-chinesa e o rabanete coreano são bases especialmente comuns, enquanto os temperos podem incluir pó de malagueta coreana, cebolinhas, alho, gengibre ou marisco salgado. O kimchi também é usado em sopas e guisados, alargando o seu papel para além da mesa dos acompanhamentos.

    By Korea.net / Korean Culture and Information Service (Photographer name), CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=31705627

    A preparação pode começar pela salga da couve ou do rabanete. Num método descrito, a couve é cortada longitudinalmente em quatro partes e ligeiramente salgada, enquanto os rabanetes são cortados em cubos. Uma pasta de tempero pode incluir farinha de arroz, água, açúcar, molho de peixe, malagueta, alho, gengibre, cebola, cebolinho, tiras de rabanete e, opcionalmente, ostras. A mistura pode depois fermentar em frascos durante pelo menos dois dias à temperatura ambiente ou ser refrigerada para consumo imediato.

    A Malagueta e uma Identidade Culinária em Mudança

    Agricultor a cultivar pimentos vermelhos num campo
    Agricultor a cultivar pimentos vermelhos num campo. Foto: Rotadefterim / CC BY-SA 4.0

    O kimchi nem sempre foi o alimento picante com que é hoje amplamente associado. Os primeiros registos históricos não mencionam alho nem malagueta no kimchi. As malaguetas eram desconhecidas na Coreia até ao início do século XVII, por serem uma cultura originária do Novo Mundo.

    Originárias das Américas, as malaguetas foram introduzidas na Ásia Oriental por comerciantes portugueses. A primeira menção no registo histórico apresentado surge em *Jibong yuseol*, uma enciclopédia publicada em 1614. Um livro sobre gestão agrícola dos séculos XVII e XVIII, o *Sallim gyeongje*, escreveu sobre kimchi com malagueta.

    Ainda assim, a malagueta só se generalizou no kimchi no século XIX. As receitas do início desse século assemelham-se muito ao kimchi actual. Esta mudança gradual recorda-nos que um alimento emblemático pode perdurar sem permanecer inalterado. A identidade do kimchi desenvolveu-se através das práticas de conservação, mas os seus ingredientes e sabores também evoluíram ao longo do tempo.

    Gimjang: A Alimentação como Trabalho Comunitário

    A preparação de kimchi foi historicamente uma actividade comunitária, além de uma tarefa doméstica. Os vizinhos preparavam grandes quantidades em conjunto, para que houvesse alimentos disponíveis durante o inverno.

    Este trabalho também criava laços entre as mulheres da família. A preparação de kimchi reunia familiares e vizinhos através de uma tarefa sazonal recorrente.

    A sua importância cultural recebeu reconhecimento formal. Em 2013, a UNESCO incluiu na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade a preparação e a partilha de conservas de kimchi na República da Coreia, designada «Kimjang». Em 2015, a UNESCO acrescentou à mesma lista uma candidatura norte-coreana intitulada «Preparação tradicional de kimchi na República Popular Democrática da Coreia».

    O reconhecimento internacional do kimchi como alimento tradicional coreano também tem sido promovido como parte do património cultural coreano.

    Conclusão

    Pessoa a preparar kimchi fresco de couve-chinesa numa cozinha
    Pessoa a preparar kimchi fresco de couve-chinesa numa cozinha. Foto: Aaron Muir Hamilton <aaron@correspondwith.me> (talk) / CC0

    O kimchi reúne vegetais salgados, fermentação, armazenamento sazonal e preparação colectiva. Desde os primeiros vegetais fermentados até às muitas variedades de kimchi hoje conhecidas, a sua história mostra o desenvolvimento das práticas sazonais de conservação e a evolução dos ingredientes ao longo do tempo.


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  • A Corrida ao Ouro na Austrália: Migração, Conflito e Transformação

    A Corrida ao Ouro na Austrália: Migração, Conflito e Transformação

    As corridas ao ouro australianas do século XIX começaram em 1851 e alteraram rapidamente as colónias onde ouro foi encontrado.

    Chegaram trabalhadores de outras partes da Austrália e do estrangeiro, enquanto antigas colónias penais se desenvolveram em cidades mais progressistas graças à chegada de imigrantes livres.

    As descobertas reformularam os padrões populacionais, impulsionaram o crescimento económico e geraram uma resistência colectiva à autoridade que contribuiu para uma identidade nacional distinta.

    Das Descobertas Suprimidas à Corrida ao Ouro

    Vista aérea da mina de ouro histórica de Ballarat
    Vista aérea da mina de ouro histórica de Ballarat. Foto: Chensiyuan / CC BY-SA 4.0

    O ouro já tinha sido encontrado várias vezes na Austrália antes de 1851, mas o governo colonial de Nova Gales do Sul suprimiu a notícia por recear uma redução da mão-de-obra e a desequilíbrio económico.

    Essa preocupação tornou-se mais urgente depois do início da Corrida ao Ouro da Califórnia, em 1848, quando muitas pessoas deixaram a Austrália rumo à Califórnia. Em resposta, o governo de Nova Gales do Sul procurou obter autorização do Gabinete Colonial Britânico para explorar recursos minerais e ofereceu recompensas pela descoberta de ouro.

    A primeira corrida ao ouro australiano começou em Maio de 1851, depois de o prospector Edward Hargraves e outros terem afirmado encontrar ouro explorável perto de Orange, num local chamado Ophir. Hargraves tinha visitado anteriormente os campos auríferos da Califórnia, onde aprendeu métodos de prospecção, incluindo a lavagem em bateia e o uso de berços de lavagem.

    Antes do fim de 1851, a corrida em Nova Gales do Sul tinha-se alargado a outras zonas onde se encontrara ouro, incluindo locais a oeste, sul e norte de Sydney. Vitória viveu a sua primeira corrida ao ouro em Julho de 1851, em Clunes. Em Agosto, a corrida expandiu-se para Buninyong, actualmente um subúrbio de Ballarat, e no início de Setembro chegou a Ballarat, então também chamada Yuille’s Diggings. O ouro foi igualmente encontrado em Castlemaine, então conhecida como Forest Creek e campo aurífero de Mount Alexander, no início de Setembro, e em Bendigo, então conhecida como Bendigo Creek, em Novembro de 1851.

    O movimento não se limitou a uma única colónia, pois as descobertas em Nova Gales do Sul e Vitória atraíram pessoas de toda a Austrália e do estrangeiro.

    Migração e uma Nova Sociedade Multicultural

    Pintura de mineiros chineses nas minas de ouro australianas
    Pintura de mineiros chineses nas minas de ouro australianas. Foto: George Rowe / domínio público

    As corridas ao ouro transformaram a demografia da Austrália numa escala notável. A população total do país passou de cerca de 430 000 habitantes, em 1851, para 1,7 milhões, em 1871, quase quadruplicando. Foi durante o período das corridas ao ouro que a Austrália se tornou, pela primeira vez, uma sociedade multicultural.

    Vitória foi um destino central para os migrantes. Entre 1852 e 1860, 290 000 pessoas migraram para Vitória a partir das Ilhas Britânicas, 15 000 chegaram de outros países europeus e 18 000 emigraram dos Estados Unidos. Alguns chilenos que tinham participado na Corrida ao Ouro da Califórnia também viajaram para a Austrália. Trouxeram tecnologias que tinham introduzido na Califórnia, incluindo o moinho chileno, que se tornou comum na mineração australiana.

    A migração não foi apenas numérica. Entre os recém-chegados encontravam-se pessoas designadas por “diggers”, ou seja, aspirantes a encontrar ouro que levaram competências e profissões para as colónias. A sua chegada ajudou a criar uma economia em expansão, enquanto muitos dos que não encontraram riqueza optaram por ficar e integrar-se nas novas comunidades.

    Melbourne beneficiou fortemente deste movimento de pessoas e capital. A corrida ao ouro vitoriana decorreu aproximadamente entre 1851 e o final da década de 1860 e trouxe uma prosperidade extrema à colónia, crescimento populacional e capital financeiro a Melbourne. A cidade recebeu a alcunha de “Marvellous Melbourne” devido à riqueza que adquiriu.

    Riqueza, Mineração e Transformação Urbana

    A rapidez e a visibilidade da extracção de ouro reforçaram a sensação de que as colónias tinham entrado numa nova era. Em Ballarat, os diggers encontraram um campo aurífero próspero. O vice-governador Charles La Trobe visitou o local e observou cinco homens a descobrirem 136 onças troy de ouro num único dia. Em Mount Alexander, o ouro era ainda mais abundante do que em Ballarat. Como se encontrava logo abaixo da superfície, os diggers conseguiam descobrir pepitas com facilidade.

    A escala da extracção em Mount Alexander foi considerável. Em sete meses, foram transportadas 2 400 000 libras, ou 1 100 toneladas, de ouro de Mount Alexander para as cidades capitais próximas.

    Em 1854, o Comité de Descoberta de Ouro de Vitória escreveu que a descoberta dos campos auríferos vitorianos tinha transformado uma dependência remota num país de fama mundial. Segundo o comité, os campos auríferos atraíram uma população extraordinária com uma rapidez sem precedentes, aumentaram enormemente o valor das propriedades e fizeram de Vitória o país mais rico do mundo. O comité defendeu ainda que, em menos de três anos, as descobertas tinham realizado para a colónia o trabalho de uma era e afectado regiões distantes do planeta.

    Quer pelo movimento directo de ouro, pelo aumento do valor das propriedades ou pela chegada de migrantes e capital, as corridas transformaram a vida económica colonial. Antigas colónias penais desenvolveram-se em cidades mais progressistas graças à imigração livre, e Melbourne passou a estar intimamente associada à prosperidade da corrida vitoriana.

    Conflito, Exclusão e Mudança Política

    Memorial da Eureka Stockade junto a uma multidão em Ballarat
    Memorial da Eureka Stockade junto a uma multidão em Ballarat. Foto: John Englart from Fawkner, Australia / CC BY-SA 2.0

    As corridas ao ouro também revelaram conflitos na nova sociedade. Os diggers desenvolveram o companheirismo, uma relação de solidariedade que surgiu nos campos auríferos. A sua resistência colectiva à autoridade contribuiu para o aparecimento de uma identidade nacional singular.

    A nova sociedade multicultural não acolheu todos os recém-chegados de igual forma. Os imigrantes chineses eram particularmente trabalhadores e utilizavam técnicas muito diferentes das usadas pelos europeus. A sua aparência física e o receio do desconhecido contribuíram para uma perseguição racista que a fonte descreve como insustentável nos dias de hoje.

    Em 1855, chegaram a Melbourne 11 493 chineses. Nesse mesmo ano, Vitória aprovou a Lei da Imigração Chinesa de 1855, que limitava severamente o número de passageiros chineses autorizados a bordo de cada embarcação chegada. Os chineses que viajavam para fora de Nova Gales do Sul também tinham de obter certificados especiais de reentrada.

    Alguns migrantes chineses contornaram a nova lei de Vitória, desembarcando no sudeste da Austrália do Sul e percorrendo mais de 400 quilómetros por terra até aos campos auríferos vitorianos. Os trilhos usados nessas viagens ainda são visíveis actualmente. As colónias foram transformadas pela migração, mas as autoridades impuseram controlos discriminatórios a determinados migrantes.

    Conclusão

    Rua histórica reconstruída em Sovereign Hill, Ballarat
    Rua histórica reconstruída em Sovereign Hill, Ballarat. Foto: Mike Lehmann, Mike Switzerland / CC BY-SA 3.0

    As corridas ao ouro australianas transformaram as colónias através da mobilidade, da riqueza e do conflito. As descobertas iniciadas em 1851 atraíram migrantes da Austrália, das Ilhas Britânicas, da Europa, dos Estados Unidos e do Chile, enquanto a população australiana quase quadruplicou até 1871. A produção de ouro promoveu prosperidade, crescimento urbano e capital financeiro, sobretudo em Vitória e Melbourne. Ao mesmo tempo, os campos auríferos fomentaram a solidariedade dos diggers e a resistência à autoridade, enquanto os migrantes chineses enfrentaram perseguição racista e legislação restritiva.


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  • Roquefort: A História do Queijo Azul Francês Curado em Grutas

    Roquefort: A História do Queijo Azul Francês Curado em Grutas

    O Roquefort é um queijo azul de leite de ovelha do sul de França.

    A sua identidade assenta numa combinação específica de leite, bolor e maturação: ao abrigo da legislação europeia, apenas os queijos maturados nas grutas naturais de Combalou, em Roquefort-sur-Soulzon, podem ostentar o nome Roquefort.

    O resultado é um queijo cuja pasta branca, veios azuis e carácter intenso e ácido são inseparáveis do local onde amadurece.

    Um queijo moldado pelo leite de ovelha

    Rebanho de ovelhas Lacaune num pasto rural
    Rebanho de ovelhas Lacaune num pasto rural. Foto: Myrabella / CC BY-SA 3.0

    O Roquefort é produzido exclusivamente com leite de ovelhas Lacaune. Nem sempre foi assim: antes das regras da Appellation d’Origine Contrôlée, ou AOC, de 1925, os produtores por vezes acrescentavam uma pequena quantidade de leite de vaca ou de cabra. As regras posteriores definiram com maior rigor a origem do leite, tornando o leite de ovelha central para a identidade protegida do queijo.

    O leite é também importante em termos práticos. São necessários cerca de 4,5 litros de leite para produzir um quilograma de Roquefort, enquanto uma peça acabada típica pesa entre 2,5 e 3 quilogramas. As peças têm cerca de 10 centímetros de espessura.

    Os regulamentos que regem o Roquefort ligam o leite ao território mais vasto em redor de Aveyron.

    As ovelhas devem pastar sempre que possível nest area, e pelo menos 75% dos seus cereais ou forragens deve provir daqui.

    O leite deve ser inteiro e cru, não podendo ser aquecido acima de 34 °C, e só pode ser filtrado para remover partículas macroscópicas. O coalho deve ser adicionado no prazo de 48 horas após a ordenha.

    Estes requisitos fazem do Roquefort mais do que um queijo azul genérico. Definem uma cadeia que começa nas ovelhas Lacaune e na alimentação regional, prosseguindo depois através de um manuseamento do leite e de um fabrico do queijo cuidadosamente regulamentados.

    Os veios azuis: *Penicillium roqueforti* em acção

    Queijos azuis variados, incluindo Roquefort, numa vitrina de charcutaria
    Queijos azuis variados, incluindo Roquefort, numa vitrina de charcutaria. Foto: Maksym Kozlenko / CC BY-SA 4.0

    Os característicos veios azul-esverdeados do Roquefort resultam de bolores do género *Penicillium*. Mais especificamente, o bolor utilizado na produção é o *Penicillium roqueforti*. Segundo as regras da AOC, este bolor tem de ser produzido em França a partir das grutas naturais de Roquefort-sur-Soulzon.

    O bolor não é apenas uma característica visual. Produz os veios azuis que conferem ao Roquefort a sua acidez intensa e contribuem para o aroma e sabor característicos. O Roquefort é descrito como branco, ácido, cremoso e ligeiramente húmido, com veios de bolor azul e um sabor associado ao ácido butírico. O exterior é comestível e ligeiramente salgado, não tendo crosta.

    No processo de produção descrito para o Roquefort, os fungos são injectados na massa do queijo. O queijo passa depois por um processo de maturação de três meses, durante o qual estes bolores desenvolvem os característicos veios azul-esverdeados e o sabor particular do queijo.

    Uma avaliação de risco da Agência de Protecção Ambiental dos Estados Unidos afirma que a sua utilização na produção de Roquefort é segura e que, historicamente, não revelou efeitos nocivos relevantes para a saúde. Ao mesmo tempo, o *Penicillium roqueforti* não produz penicilina.

    Porque são importantes as grutas

    A protecção legal do Roquefort está invulgarmente ligada à maturação num ambiente natural específico.

    Uma decisão de 1961 do Tribunal de Grande Instance de Millau reforçou este princípio: o método de fabrico do queijo podia ser seguido em todo o sul de França, mas apenas os queijos maturados nas grutas naturais do monte Combalou, em Roquefort-sur-Soulzon, podiam ostentar o nome Roquefort.

    As regras alargam esta ligação geográfica para além da maturação. Todo o processo de maturação, corte, embalagem e refrigeração deve decorrer na comuna de Roquefort-sur-Soulzon. A salga deve ser feita com sal seco.

    Esta exigência relativa às grutas explica por que razão o Roquefort é uma designação geográfica e não apenas uma receita. Os bolores são usados de forma mais abrangente nos queijos azuis, mas o nome protegido Roquefort depende das grutas naturais da sua própria localidade. Assim, as grutas fazem parte da definição oficial do queijo, a par do leite de ovelha, das exigências relativas ao leite cru e dos controlos de produção.

    Uma Lenda

    Uma lenda célebre atribui a descoberta do Roquefort a um pastor. Enquanto comia pão e queijo de leite de ovelha, avistou ao longe uma rapariga bonita, deixou a refeição numa gruta próxima e correu ao seu encontro. Quando regressou meses mais tarde, o bolor *Penicillium roqueforti* tinha transformado o queijo simples em Roquefort.

    Um queijo distinto pelo seu lugar

    Tábua de queijos, incluindo queijo azul, enchidos e acompanhamentos
    Tábua de queijos, incluindo queijo azul, enchidos e acompanhamentos. Foto: BobPetUK / CC BY 2.0

    A identidade do Roquefort resulta do encontro de vários elementos: leite de ovelhas Lacaune, *Penicillium roqueforti*, salga a seco e maturação nas grutas naturais de Roquefort-sur-Soulzon. A sua textura cremosa, mas quebradiça, o exterior húmido, os veios azul-esverdeados e o sabor pronunciado e picante reflectem esse processo cuidadosamente protegido. Por essa razão, o Roquefort continua a ser não só um queijo azul, mas também um queijo definido pelas grutas e pela comunidade do lugar cujo nome ostenta.


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  • Teatro Nō: Máscaras, Música e Espiritualidade no Japão

    Teatro Nō: Máscaras, Música e Espiritualidade no Japão

    O Nō é uma das principais formas japonesas de drama-dança clássica e a mais antiga grande arte teatral do país ainda regularmente representada. Apresentado desde o século XIV, reúne máscaras, trajes, adereços, dança e gestos altamente codificados. A sua linguagem contida cria um denso universo poético de espíritos, memórias, natureza e emoção humana.

    Do entretenimento popular ao teatro clássico

    A palavra Nō, escrita 能, significa «habilidade», «ofício» ou «talento» no contexto das artes performativas. Pode também surgir no termo nōgaku, que abrange tanto o Nō como o kyōgen, a sua vertente teatral cómica.

    O Nō surgiu do sarugaku em meados do século XIV, embora a sua história inclua muitas tradições performativas anteriores. O sangaku, introduzido no Japão a partir da China no século VIII, incluía acrobacias, canto, dança e performances cómicas. Elementos associados ao dengaku, celebrações rurais ligadas à plantação do arroz, bem como ao sarugaku, shirabyōshi, gagaku e kagura, também evoluíram para o Nō e o kyōgen. Outra fonte identifica raízes no nuóxì, uma forma teatrica chinesa.

    Durante o período Muromachi, entre 1336 e 1573, Kan’ami Kiyotsugu e o seu filho Zeami Motokiyo reinterpretaram as artes performativas tradicionais e moldaram o Nō numa forma significativamente diferente das que o precederam. Kan’ami era conhecido como actor versátil, interpretando papéis que iam de mulheres graciosas e rapazes jovens a homens fortes. Zeami tornou-se um dos mais importantes dramaturgos do Nō e deixou também tratados sobre a arte de representar.

    O apoio do xogum Ashikaga Yoshimitsu foi fundamental para a ascensão do Nō no século XIV. Com o seu patrocínio, Zeami conseguiu estabelecer o Nō como a forma de arte teatral mais proeminente do período. O Nō tornou-se uma arte cortesã e é hoje valorizado como tradição clássica.

    Um teatro de máscaras, papéis e espíritos

    Conjunto de acessórios de teatro Nō, incluindo máscaras japonesas
    Conjunto de acessórios de teatro Nō, incluindo máscaras japonesas. Foto: Anonymous (Japan)Unknown author / domínio público

    O Nō inspira-se frequentemente em narrativas da literatura tradicional nas quais um ser sobrenatural assume forma humana e conta a história. O seu universo inclui deuses, guerreiros e mulheres enlouquecidas, todos ligados aos mistérios do espírito. O repertório contém cerca de 250 peças.

    No centro da narrativa está o *shite*, o protagonista. O *shite* é o papel associado à máscara e pode representar seres míticos e figuras da cultura japonesa. Pode ser um espírito errante que exprime liricamente a nostalgia do passado. O *waki*, frequentemente um monge, em geral não altera a acção, mas ajuda a revelar a essência do *shite*.

    As máscaras não são meros objectos decorativos no Nō. Representam papéis específicos, incluindo fantasmas, mulheres, divindades e demónios. Nesta arte, a emoção é transmitida sobretudo através de gestos convencionais estilizados, pelo que um rosto oculto por uma máscara não significa ausência de expressão.

    A Hannya é uma máscara de Nō muito conhecida. Representa uma mulher transformada num demónio-serpente, marcada pelo ódio e pela inveja, com cornos, boca grande e dentes ameaçadores. A máscara representa mulheres que se tornam demónios por obsessão ou ciúme. É também descrita como uma alegoria dos sentimentos humanos, incluindo paixão, ciúme e ódio, emoções capazes de transformar mulheres e homens num monstro terrível.

    Música, canto e o poder da contenção

    O Nō é uma fusão de poesia, teatro, dança, música vocal, música instrumental e máscaras. Os seus elementos musicais estão intimamente ligados ao canto e à pantomima. A acção é sustentada por um coro e quatro instrumentos: a flauta transversal, ou *nōkan*; o tambor de ombro, ou *kotsuzumi*; o tambor de anca, ou *otsuzumi*; e o tambor tocado com baquetas, ou *taiko*.

    O coro tem uma função dramática decisiva, ajudando a conduzir a narrativa. A música, o movimento e a voz não acompanham apenas o enredo, fazem parte dos meios através dos quais este é comunicado. A história de uma cena assenta no texto cantado, nos gestos e nos movimentos do actor.

    Esta linguagem segue regras corporais e musicais, bem como teorias sofisticadas, criando uma estética requintada. Pode também ser difícil de compreender para o público, sobretudo porque os libretos usam uma linguagem arcaica e complexa, os gestos e movimentos são codificados, e a linguagem musical do Nō pode ser pouco familiar ao ouvido comum.

    O estilo é caracteristicamente lento, com uma postura erecta e rígida e movimentos subtis. Um gesto pode ser quase imperceptível: um actor pode estilizar o acto de erguer os olhos para a lua ou de sacudir a neve de um quimono com a mão. Estas acções condensadas podem sugerir um universo poético mais amplo, envolvendo fenómenos naturais e a vida observada sob diferentes perspectivas.

    Tradição, escolas e representação viva

    Fachada de um teatro Nō em Kanazawa, Japão
    Fachada de um teatro Nō em Kanazawa, Japão. Foto: Saigawasakurabashi / CC BY-SA 3.0

    O Nō dá grande importância à tradição, em vez da inovação, e é altamente codificado e regulamentado pelo sistema *iemoto*. No período Edo, manteve-se como uma arte aristocrática apoiada pelo xogum, por senhores feudais e por plebeus ricos e cultos. Enquanto o kabuki e o jōruri se centravam em entretenimento novo e experimental para a classe média, o Nō procurava preservar padrões estabelecidos e autenticidade histórica.

    Tradicionalmente, um programa completo de nōgaku durava todo o dia e incluía cinco peças de Nō, separadas por pequenas peças cómicas de kyōgen. Hoje, é comum um programa abreviado de duas peças de Nō e uma obra de kyōgen. As actuais companhias de Nō encontram-se em Tóquio, Osaca e Quioto.

    Existem cinco escolas de *shite*: Kanze, Hōshō, Komparu, Kongō e Kita. Com excepção da Kita, todas remontam ao tempo de Kan’ami e Zeami. A formação é especializada, abrangendo os papéis de *shite*, *waki* e actor de kyōgen, bem como cada um dos quatro instrumentos.

    Tradicionalmente, os actores de Nō não ensaiam em conjunto. Cada actor pratica movimentos e cantos sozinho ou sob a orientação de um membro mais velho. Contudo, o ritmo de cada representação é determinado pela interacção entre actores, músicos e coro.

    Conclusão

    Palco de teatro Nō japonês vazio, visto de uma plateia
    Palco de teatro Nō japonês vazio, visto de uma plateia. Foto: J. Cuatrocasas / CC BY-SA 4.0

    A linguagem simbólica do Nō inclui máscaras associadas ao ciúme, gestos comedidos que evocam o luar ou a neve, e histórias de espíritos que exprimem nostalgia pelo passado. Nascido de múltiplas tradições performativas e moldado no século XIV por Kan’ami e Zeami, o Nō continua a apresentar uma arte rigorosamente preservada de música, movimento, poesia e imaginação espiritual.


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  • O Mecanismo de Anticítera: o Computador da Antiguidade

    O Mecanismo de Anticítera: o Computador da Antiguidade

    Poucos objectos arqueológicos tornam o mundo antigo tão surpreendentemente próximo da tecnologia moderna como o mecanismo de Anticítera.

    Recuperado de um naufrágio perto da ilha grega de Anticítera, este dispositivo de bronze corroído tem sido descrito como o mais antigo computador analógico conhecido.

    Construído na Antiguidade, utilizava um sistema de engrenagens accionado manualmente para modelar ciclos celestes, prever eclipses e acompanhar posições astronómicas muito para além do presente.

    Uma descoberta escondida num naufrágio

    O mecanismo foi encontrado entre os restos de um navio romano de carga naufragado ao largo de Anticítera. Mergulhadores de esponjas da ilha de Symi descobriram o naufrágio no início de 1900, e os artefactos foram recuperados durante uma expedição que envolveu a Marinha Real Helénica, em 1900 e 1901. O naufrágio encontrava-se perto do cabo Glyphadia, a uma profundidade indicada como 45 metros numa fonte e aproximadamente 43 metros noutra.

    Os mergulhadores recuperaram muitos objectos, incluindo estátuas de bronze e mármore, cerâmica, objectos de vidro, jóias, moedas e o próprio mecanismo. O dispositivo foi recuperado em 1901, provavelmente em Julho, embora permaneça desconhecido como foi parar ao navio de carga.

    Inicialmente, não parecia uma máquina sofisticada. Após quase dois mil anos submerso, o objecto estava fortemente corroído e coberto de incrustações, assemelhando-se a uma pedra esverdeada. Foi inicialmente eclipsado pelo entusiasmo em torno das estátuas e de outros achados mais imediatamente reconhecíveis.

    Um momento decisivo ocorreu em 17 de Maio de 1902, quando o arqueólogo Valerios Stais e o seu primo, o político Spyridon Stais, repararam que um dos fragmentos continha uma roda dentada. Valerios Stais pensou inicialmente que poderia tratar-se de um relógio astronómico, embora muitos estudiosos considerassem tal dispositivo demasiado avançado para o período representado pelo naufrágio.

    O filólogo alemão Albert Rehm interessou-se pelo objecto e foi o primeiro a propor que se tratava de uma calculadora astronómica.

    Uma máquina compacta de engrenagens de bronze

    O mecanismo de Anticítera estava originalmente alojado numa caixa com estrutura de madeira, cujas dimensões globais são incertas, mas que foi descrita como tendo 34 centímetros por 18 centímetros por 9 centímetros. Foi recuperado como um único bloco e posteriormente separado em três fragmentos principais. Os trabalhos de conservação acabaram por produzir 82 fragmentos distintos.

    Quatro fragmentos contêm engrenagens, enquanto inscrições surgem em muitos outros. A maior engrenagem tem cerca de 13 centímetros de diâmetro e tinha originalmente 223 dentes. Todos os fragmentos conhecidos estão guardados no Museu Arqueológico Nacional de Atenas, juntamente com reconstruções e réplicas destinadas a mostrar o possível aspecto e funcionamento do dispositivo.

    O mecanismo é geralmente descrito como um planetário mecânico grego antigo, um modelo do Sistema Solar, accionado à mão. É também chamado o primeiro computador analógico conhecido.

    A sua aparente complexidade é central para a sua importância. Máquinas de complexidade semelhante só voltaram a surgir no século XIV, na Europa ocidental. Uma fonte em língua portuguesa compara este reaparecimento posterior de uma complexidade comparável aos relógios astronómicos de Richard de Wallingford e Giovanni de’ Dondi.

    Ler a máquina através da investigação moderna

    Reconstrução e radiografias do Mecanismo de Anticítera
    Reconstrução e radiografias do Mecanismo de Anticítera. Foto: Freeth, T., Higgon, D., Dacanalis, A. et al. / CC BY 4.0

    Durante décadas, a compreensão do mecanismo permaneceu incompleta. O historiador britânico da ciência e professor da Universidade de Yale Derek J. de Solla Price interessou-se por ele em 1951. Em 1971, Price e o físico nuclear grego Charalampos Karakalos criaram imagens de raios X e raios gama dos 82 fragmentos, e Price publicou as suas conclusões em 1974.

    O trabalho de Price ajudou a estabelecer o mecanismo como uma calculadora astronómica altamente complexa. Em 1958, examinou-o e considerou que poderia indicar acontecimentos astronómicos passados ou futuros, incluindo a próxima lua cheia. Observou que as inscrições no mostrador se referiam a divisões do calendário, como dias, meses e signos do zodíaco.

    Investigações posteriores trouxeram provas ainda mais claras. Em 2005, uma equipa da Universidade de Cardiff, liderada por Mike Edmunds, utilizou tomografia computadorizada de raios X e digitalização de alta resolução para observar o interior dos fragmentos cobertos por crosta e ler inscrições ténues da caixa exterior.

    Estas análises sugeriram que o mecanismo tinha 37 engrenagens de bronze interligadas. A investigação mostrou que podia acompanhar os movimentos do Sol e da Lua através do zodíaco, prever eclipses e modelar a órbita irregular da Lua.

    As análises também indicaram uma característica muito específica desse modelo lunar: a velocidade da Lua é maior no perigeu do que no apogeu. Este movimento tinha sido estudado no século II a.C. pelo astrónomo Hiparco de Rodes, que poderá ter sido consultado durante a construção do mecanismo.

    Inscrições decifradas mais aprofundadamente em 2016 revelaram números ligados aos ciclos sinódicos de Vénus e Saturno. Há também especulação de que uma parte em falta do mecanismo poderia ter calculado as posições dos cinco planetas clássicos.

    Ciclos celestes, eclipses e jogos

    Fragmento corroído do Mecanismo de Anticítera com mostradores astronómicos
    Fragmento corroído do Mecanismo de Anticítera com mostradores astronómicos. Foto: Logg Tandy / CC BY-SA 4.0

    O mecanismo de Anticítera não era apenas uma demonstração de engrenagens.

    Investigação afirma que rodar um botão activava engrenagens de, pelo menos, 30 rodas dentadas e accionava três mostradores em ambos os lados do aparelho. Isto permitia ao utilizador prever ciclos astronómicos, incluindo eclipses, em relação ao ciclo quadrienal dos Jogos Olímpicos e de outros jogos pan-helénicos.

    Estes jogos eram habitualmente utilizados como base cronológica. O mecanismo ligava, assim, a observação celeste, a organização do calendário e a medição do tempo na vida pública.

    As capacidades do dispositivo mostram até que ponto a observação, o cálculo e a vida prática podiam cruzar-se. As suas engrenagens transformavam movimentos recorrentes no céu num instrumento que podia ser accionado manualmente e lido por meio de mostradores, inscrições e ciclos.

    Datação de um instrumento extraordinário

    Fragmentos corroídos do Mecanismo de Anticítera em exposição museológica
    Fragmentos corroídos do Mecanismo de Anticítera em exposição museológica. Foto: Joyofmuseums / CC BY-SA 4.0

    Acredita-se que o mecanismo tenha sido concebido e construído por cientistas helenísticos, mas a sua data exacta continua a ser debatida. As datas propostas incluem cerca de 87 a.C., um período entre 150 e 100 a.C. e 205 a.C.

    Em 2022, investigadores propuseram que a sua data de calibração inicial, e não a data de construção, poderia ter sido 23 de Dezembro de 178 a.C. Outros especialistas propuseram 204 a.C. como uma data de calibração mais provável.

    Estas datas divergentes não diminuem a importância do mecanismo. Quer seja considerado um planetário mecânico, uma calculadora astronómica ou o primeiro computador analógico conhecido, continua a ser prova de uma abordagem sofisticada à modelação dos ritmos celestes no mundo grego antigo.

    O mecanismo de Anticítera sobrevive apenas em fragmentos, mas esses fragmentos revelam um dispositivo construído para tornar os céus legíveis. As suas engrenagens de bronze ligavam os movimentos do Sol e da Lua, os eclipses, as posições zodiacais e os ciclos atléticos numa única máquina accionada à mão, preservando um capítulo extraordinário da história do cálculo.


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  • Os Guerreiros de Terracota: O Exército Funerário do Primeiro Imperador da China

    Os Guerreiros de Terracota: O Exército Funerário do Primeiro Imperador da China

    O Exército de Terracota é uma vasta colecção de esculturas em terracota que representam os exércitos de Qin Shi Huang, o primeiro imperador da China.

    Enterradas com ele entre 210 e 209 a.C., estas figuras constituíam arte funerária destinada a proteger o imperador na vida após a morte.

    Um Monumento Imperial para a Eternidade

    Maquete iluminada do mausoléu de Qin Shi Huang
    Maquete iluminada do mausoléu de Qin Shi Huang. Foto: damian entwistle / CC BY-SA 2.0

    A construção começou em 246 a.C., pouco depois de ele ter sucedido ao pai como rei de Qin, aos 13 anos.

    O historiador Sima Qian, que escreveu cerca de um século após a conclusão do mausoléu, nos *Registos do Grande Historiador*, afirmou que o projecto envolveu, no fim, 700 000 trabalhadores recrutados à força.

    O local escolhido foi o monte Li, também chamado Lishan. Li Daoyuan descreveu mais tarde a montanha como um lugar privilegiado pela sua geologia auspiciosa, referindo as suas minas de jade, o lado norte rico em ouro e o belo jade a sul.

    Assim, o local de sepultura do imperador não era apenas uma campa, mas parte de uma paisagem deliberadamente seleccionada e associada a materiais valiosos.

    Segundo o célebre relato de Sima Qian, o primeiro imperador foi enterrado entre palácios, torres, funcionários, artefactos valiosos e objectos maravilhosos. Descreveu também um interior funerário com cem rios correntes simulados em mercúrio, um tecto decorado com corpos celestes e representações das terras unificadas pelo imperador. Embora a passagem original de Sima Qian não mencione o Exército de Terracota, os elevados níveis de mercúrio detectados no solo do monte funerário após a descoberta do sítio corroboraram parte do seu relato.

    O exército destinava-se a proteger o imperador após a morte.

    Um Mundo Enterrado, Não Apenas um Exército

    Escavação arqueológica com fragmentos e artefactos dos Guerreiros de Terracota
    Escavação arqueológica com fragmentos e artefactos dos Guerreiros de Terracota. Foto: Gary Lee Todd, Ph.D. / CC0

    O Exército de Terracota pertence a uma necrópole muito maior, cuja área, medida por radar de penetração no solo e por amostragem de testemunhos, é de aproximadamente 98 quilómetros quadrados. Este complexo funerário foi construído como um microcosmo do palácio ou recinto imperial do imperador.

    A necrópole inclui um monte funerário de terra ao pé do monte Li. O monte tem forma piramidal e é rodeado por duas muralhas maciças de terra apiloada, com entradas em forma de portão. Em redor existiam escritórios, salões, estábulos, outras estruturas e um parque imperial.

    Os guerreiros guardam o lado oriental do túmulo. A sua posição tinha significado: os soldados foram dispostos como se protegessem o túmulo a leste, onde se situavam os Estados conquistados pelo imperador Qin. As figuras foram encontradas cerca de sete metros abaixo do nível da escavação, sob terra acumulada ao longo de dois milénios.

    As esculturas militares incluem guerreiros, carros e cavalos. A sua altura varia consoante a patente, sendo os generais os mais altos. Estimativas de 2007 indicavam que os três fossos que continham o exército albergavam mais de 8 000 soldados, 130 carros com 520 cavalos e 150 cavalos de cavalaria. A maioria destas figuras permanece no local onde foi encontrada.

    O complexo continha também figuras para além do campo de batalha. Funcionários, acrobatas, homens fortes e músicos foram encontrados noutros fossos.

    A Descoberta Sob um Poço

    O Exército de Terracota foi descoberto em 29 de Março de 1974 por agricultores locais no distrito de Lintong, nos arredores de Xi’an, em Shaanxi, na China.

    Yang Zhifa, os seus cinco irmãos e o vizinho Wang Puzhi estavam a escavar um poço a cerca de 1,5 quilómetros a leste do monte funerário do imperador Qin, no monte Li.

    A região contém nascentes subterrâneas e cursos de água. Durante séculos antes da descoberta de 1974, surgiram relatos ocasionais de fragmentos de terracota e de partes da necrópole Qin, incluindo telhas, tijolos e alvenaria. No entanto, o achado dos agricultores levou arqueólogos chineses, entre os quais Zhao Kangmin, a investigar o sítio.

    O seu trabalho revelou o maior conjunto de estatuetas de cerâmica alguma vez descoberto. Posteriormente, foi construído um complexo museológico sobre a área, e o maior fosso foi coberto por uma estrutura com cobertura.

    Mais tarde, os arqueólogos encontraram indícios de que o sítio tinha sido perturbado antes da descoberta moderna. Perto do monte funerário do monte Li, sepulturas dos séculos XVIII e XIX mostravam que os escavadores aparentemente tinham encontrado fragmentos de terracota. Esses fragmentos foram descartados como inúteis e utilizados, juntamente com terra, para voltar a encher as escavações.

    O contraste é marcante: objectos outrora atirados de novo para a terra tornaram-se parte da descoberta do Exército de Terracota.

    As Figuras e a Sua Presença Humana

    Rosto e corpo de um guerreiro do Exército de Terracota
    Rosto e corpo de um guerreiro do Exército de Terracota. Foto: Gary Lee Todd, Ph.D. / CC0

    A força do exército reside em parte na sua escala, mas também na variedade das suas figuras. Soldados, carros e cavalos formam o seu núcleo, enquanto as figuras mais altas indicam o estatuto dos generais. As esculturas não militares alargam a história do mausoléu, introduzindo funcionários, músicos, homens fortes e acrobatas na paisagem funerária do imperador.

    Os acrobatas são particularmente notáveis. Provêm do fosso K9901, no Mausoléu do Primeiro Imperador Qin, e foram descobertos pela primeira vez em 1999 e novamente durante uma segunda escavação, em Junho de 2013. Funcionários da corte e tratadores de cavalos foram também encontrados no fosso K9901.

    Estas figuras de acrobatas são geralmente descritas como acrobatas ou dançarinos, embora a sua função original permaneça incerta. Eram comparativamente poucas, provavelmente algumas dezenas, e apresentam-se em grande parte nuas, excepto por tangas. Algumas são esguias, outras têm corpos maciços, e várias parecem estar em movimento ou a fazer gestos.

    O seu tratamento escultórico foi descrito como revelador de um conhecimento avançado da anatomia humana. As figuras apresentam proporções corporais rigorosas, musculatura pronunciada, costelas visíveis nos flancos e vértebras cuidadosamente modeladas. As variações das suas formas corporais também sugerem atenção ao movimento e à postura.

    O mausoléu inclui guardiães marciais, bem como acompanhantes e artistas.

    Um Túmulo por Abrir e um Desafio Persistente

    Monte funerário arborizado do mausoléu de Qin Shi Huang
    Monte funerário arborizado do mausoléu de Qin Shi Huang. Foto: Nathan Hughes Hamilton from Sacramento, California, USA / CC BY 2.0

    Foram descobertos quatro fossos principais, cada um com cerca de sete metros de profundidade, no local das escavações. Situam-se aproximadamente 1 500 metros a leste do monte funerário. O fosso 1 é o maior, com 230 metros de comprimento e 62 metros de largura, e contém o exército principal, com mais de 3 000 figuras.

    O túmulo do imperador parece ser um espaço hermeticamente selado e continua por abrir. Mede aproximadamente 100 por 75 metros e não foi aberto, possivelmente devido a preocupações com a preservação dos seus artefactos. Estas preocupações têm fundamento na experiência com as figuras escavadas: as superfícies pintadas de algumas esculturas em terracota começaram a descascar e a desvanecer-se após a escavação. A laca que cobre a pintura pode enrolar-se em quinze segundos após a exposição ao ar seco de Xi’an e pode desprender-se em quatro minutos.

    Conclusão

    Formação de Guerreiros de Terracota no mausoléu do primeiro imperador
    Formação de Guerreiros de Terracota no mausoléu do primeiro imperador. Foto: shankar s. from Dubai, united arab emirates / CC BY 2.0

    Os Guerreiros de Terracota foram criados para guardar Qin Shi Huang após a morte, mas revelam também a extraordinária ambição do complexo do seu mausoléu. Descobertas por agricultores em 1974, as figuras continuam a fazer parte de uma necrópole maior, parcialmente oculta, construída como um microcosmo imperial. Milhares de soldados, cavalos e carros, juntamente com funcionários, músicos e acrobatas, encontram-se entre as figuras descobertas na necrópole.


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  • Manti: Os Pequenos Pastéis Recheados da Ásia Central

    Manti: Os Pequenos Pastéis Recheados da Ásia Central

    Os manti são bolinhos recheados associados sobretudo às cozinhas uigure, arménia e da Ásia Central, embora também estejam presentes na Ásia Ocidental, no Sul do Cáucaso e nos Balcãs.

    A sua ampla distribuição geográfica torna-os numa perspectiva útil para compreender como uma mesma ideia, massa e recheio, pode variar consoante os ingredientes locais, os tamanhos preferidos e os métodos de cozedura.

    Um Bolinho que Viaja

    Mapa da Rota da Seda na Ásia Central
    Mapa da Rota da Seda na Ásia Central. Foto: DutchTreat / CC BY-SA 4.0

    Na sua forma mais comum, os manti combinam uma mistura de carne temperada, habitualmente borrego ou carne de vaca picada, com massa fina, sendo depois cozinhados por cozedura em água ou a vapor. Contudo, o tamanho e a forma variam significativamente de região para região. Esta diversidade enquadra-se na ideia mais ampla de bolinhos recheados: a massa cozinhada pode envolver carne, peixe, tofu, queijo, legumes ou combinações de recheios, e os bolinhos podem ser preparados por fervura, cozedura branda, cozedura a vapor e, por vezes, no forno ou fritos.

    Os relatos sobre a deslocação deste prato dão destaque à Ásia Central e à Rota da Seda

    Uma explicação prática sugerida é que os cavaleiros podiam transportar manti congelados ou secos e fervê-los rapidamente sobre uma fogueira. Ao mesmo tempo, alguns investigadores admitem outra possibilidade: os manti terem tido origem no Médio Oriente e difundido para leste, até à China e à Coreia, através da Rota da Seda.

    Ásia Central: Bolinhos Cozinhados a Vapor

    Manti cozidos a vapor com lentilhas, iogurte e ervas frescas
    Manti cozidos a vapor com lentilhas, iogurte e ervas frescas. Foto: Xerxes931 / CC BY-SA 4.0

    Nas cozinhas da Ásia Central, os manti são habitualmente maiores. O seu método de preparação característico é a cozedura a vapor num vaporizador metálico de vários níveis, chamado mantovarka, mantyshnitsa, manti-kazan ou manti-kaskan. Estes utensílios utilizam tabuleiros perfurados sobrepostos, colocados sobre uma panela com água. Nesta tradição, a cozedura a vapor é considerada o principal método para os manti, enquanto as versões cozidas em água ou fritas podem ser tratadas como outro tipo de bolinho, como os pelmeni.

    Os manti cazaques e quirguizes são normalmente recheados com borrego picado, por vezes carne de vaca ou de cavalo, e temperados com pimenta-preta. Pode também juntar-se abóbora, num estilo descrito como uma receita uigure tradicional. Podem ser acompanhados por manteiga, natas ácidas, molho de cebola ou molho de alho. Como comida de rua no Cazaquistão e no Quirguistão, os manti são tipicamente servidos com pimenta-vermelha picante em pó.

    Os manti usbeques apresentam uma maior variedade de recheios. Podem conter borrego, carne de vaca, couve, batata ou abóbora, isoladamente ou em combinação, tendo frequente a adição de gordura nas versões com carne. A manteiga é uma cobertura habitual, embora também possam ser servidos com natas ácidas, ketchup ou cebola fresca laminada, temperada com vinagre e pimenta-preta. Também é comum um molho de vinagre e malagueta em pó.

    As versões dos judeus bukharianos usam recheios de queijo e são habitualmente servidas com iogurte.

    Taça de mantı turco com iogurte, tomate e especiarias
    Taça de mantı turco com iogurte, tomate e especiarias. Foto: E4024 / CC BY-SA 4.0

    Os registos otomanos mostram igualmente que os nomes e as formas nem sempre se mantiveram fixos.

    Um livro de receitas impresso em 1844 inclui o Tatar böreği, um prato semelhante aos mantı, mas sem molho de iogurte e alho. Outro livro de cozinha, de 1880, inclui mantı como massa em camadas servida com carne picada e iogurte com alho, em vez de bolinhos. O mesmo livro inclui piruhi, uma versão recheada com queijo da receita de Tatar böreği.

    Colagem de comida afegã, incluindo mantu, espetadas, arroz e salada
    Colagem de comida afegã, incluindo mantu, espetadas, arroz e salada. Foto: Officer / domínio público

    Um Nome, Muitos Bolinhos

    Os manti demonstram como um prato pode manter-se reconhecível, mesmo mudando de lugar para lugar.

    O próprio nome pode referir-se a um bolinho ou a vários, e em inglês «manti» é frequentemente usado tanto no singular como no plural. Esta flexibilidade adequa-se a um alimento cuja identidade reside menos numa forma fixa do que numa conversa contínua entre massa fina, recheio, calor e molho.


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  • Potosí: A Cidade da Prata que Transformou a Economia Global

    Potosí: A Cidade da Prata que Transformou a Economia Global

    Perto da cidade boliviana de Potosí ergue-se o Cerro Rico, a «Montanha Rica», também chamado Cerro Potosí ou Sumaq Urqu. A sua reputação assenta na prata: a montanha forneceu quantidades imensas ao Império Espanhol e ajudou a transformar Potosí numa das maiores cidades do Novo Mundo. A história desta montanha é também uma história de trabalho forçado, mercúrio, paisagens degradadas e uma economia mineira que continua até hoje.

    Uma Montanha de Prata

    Cerro Rico visto de uma rua de Potosí
    Cerro Rico visto de uma rua de Potosí. Foto: Christophe Meneboeuf / CC BY-SA 2.5

    A exploração mineira no Cerro Rico começou em 1545, sob o Império Espanhol. A montanha é descrita como a mais rica fonte de prata da história da humanidade, e estima-se que 85% da prata produzida nos Andes centrais neste período tenha vindo do Cerro Rico.

    Do século XVI ao século XVIII, o Cerro Rico forneceu 80% da prata mundial. A maior parte da prata aí extraída era enviada para a Espanha metropolitana.

    Esta riqueza mineral transformou a cidade situada aos seus pés. A ligação entre a montanha e a cidade era directa: o valor tirado do Cerro Rico sustentava o crescimento urbano.

    O próprio Cerro Rico foi alterado pela extracção mineira.

    Durante o primeiro século da exploração mineira espanhola, foram feitas modificações drásticas na colina, incluindo a remoção do topo da montanha. A montanha adquiriu a sua forma actual no século XVII.

    Das Minas Andinas às Rotas Oceânicas

    Moedas espanholas de prata, irregulares e cunhadas à mão
    Moedas espanholas de prata, irregulares e cunhadas à mão. Foto: Gary Todd from Xinzheng, China / CC0

    A rota espanhola entre Espanha e as Índias era oficialmente conhecida como Rota dos Galeões a partir de 1573, funcionando através de duas frotas anuais. Uma frota navegava até Veracruz, enquanto a frota de Tierra Firme seguia para Portobelo, no Panamá.

    As remessas de prata, ouro, esmeraldas, pérolas e outros bens do Vice-Reino do Peru viajavam regularmente de Callao para a Cidade do Panamá. Daí, as cargas seguiam por terra até Portobelo, e as frotas de galeões atravessavam as Caraíbas por portos como Cartagena das Índias, Santa Marta e Santo Domingo, antes de cruzarem o Atlântico até Sevilha.

    Até 1765, Sevilha era o único porto autorizado para embarque e desembarque neste sistema. No sentido inverso, os produtos espanhóis chegavam a Callao e podiam ser transportados em mulas até Potosí, antes de prosseguirem para Buenos Aires.

    As rotas eram simultaneamente comerciais e estratégicas. Portobelo, Cartagena e Havana funcionavam como importantes fortalezas defensivas da Rota dos Galeões, enquanto Portobelo acolhia feiras de troca comercial. Depois de as forças britânicas terem capturado, saqueado e destruído Portobelo em 21 de Novembro de 1739, as autoridades espanholas reconheceram cada vez mais a necessidade de formalizar uma rota mais segura através do Río de la Plata.

    Em 1778, o rei Carlos III promulgou regulamentos que abriram o comércio recíproco através de 13 portos espanhóis e 25 portos nas Índias, incluindo Buenos Aires e Montevideu, pondo fim à rota monopolista. Estas reformas alteraram substancialmente os poderes e factores económicos tanto na Península Ibérica como na América Espanhola.

    O Custo Humano da Extracção

    Mineiros de Potosí junto à entrada de uma mina
    Mineiros de Potosí junto à entrada de uma mina. Foto: Dan Lundberg / CC BY-SA 2.0

    A economia da prata assentava em sistemas de trabalho exigentes e frequentemente coercivos.

    O Império Espanhol utilizou o sistema de “repartimiento” de Indios para extrair prata no Cerro Rico. Em 1574, o vice-rei Francisco de Toledo reintroduziu a mita, um sistema anual de trabalho forçado que tinha sido utilizado pelo Império Inca.

    Nas primeiras décadas, as minas de Potosí continham extensos depósitos de prata pura e cloreto de prata, o que tornava a extracção relativamente fácil. Em 1565, porém, o Cerro Rico tinha esgotado os seus minérios de prata de alto teor. A exploração mineira foi reanimada pelo processo de patio, que utilizava mercúrio para formar amálgamas de prata e recuperar prata de minérios de menor teor.

    O trabalho era perigoso. O envenenamento por mercúrio entre os trabalhadores ameríndios era comum e causou muitas mortes. As condições duras nas minas e nos pátios de refinação também provocaram mortes durante o domínio espanhol.

    A montanha passou a ser conhecida como a «montanha que devora homens», devido ao grande número de trabalhadores que morreram nas suas minas. Uma estimativa aponta para cerca de oito milhões de mortes de mineiros, embora outras fontes apontem antes para centenas de milhares e defendam que os oito milhões se referem às mortes em todo o Vice-Reino do Peru, e não apenas às minas de Potosí. Esta divergência é importante porque mostra que o custo humano é simultaneamente central na história de Potosí e difícil de reduzir a um único número incontestado.

    O trabalho não era exclusivamente forçado nem assumia uma única forma fixa. O “repartimiento” era cíclico e, depois de cumprirem o serviço obrigatório, muitos ameríndios continuavam a trabalhar nas minas como assalariados livres apesar das condições duras.

    Um Legado que Continua a Ser Explorado

    Gravura histórica do interior de uma mina de prata de Potosí
    Gravura histórica do interior de uma mina de prata de Potosí. Foto: Unknown authorUnknown author / domínio público

    O Cerro Rico continua a ter importância económica. A exploração mineira prossegue através de várias cooperativas em minas subterrâneas e da maior mina a céu aberto de San Bartolomé, operada pela Empresa Minera Manquiri. A montanha continua a ser um contributo importante para a economia de Potosí e emprega cerca de 15 000 mineiros.

    No entanto, as consequências ambientais e sanitárias continuam graves. Séculos de métodos extractivos danificaram severamente a ecologia local. As más condições de trabalho, incluindo a falta de equipamento de protecção contra a inalação constante de poeiras, contribuem para a silicose de muitos mineiros. A sua esperança de vida é descrita como sendo de cerca de 40 anos.

    A instabilidade física da montanha também é visível. Em 2011, surgiu uma dolina no seu cume, que teve de ser preenchida com cimento ultraleve. O cume continua a afundar alguns centímetros por ano. Em 2014, a UNESCO acrescentou o Cerro Rico e Potosí à sua lista de sítios em perigo, citando operações mineiras descontroladas que ameaçam degradar o local.

    O Cerro Rico é em grande parte estéril, embora um pequeno número de espécies vegetais o tenha colonizado e vivam nas suas encostas. A sua forma danificada não é, por isso, apenas um cenário histórico, mas uma prova de um passado extractivo que continua activo no presente.

    Conclusão

    Panorama histórico de Potosí, com a cidade e o Cerro Rico
    Panorama histórico de Potosí, com a cidade e o Cerro Rico. Foto: Giadrico7 / CC0

    A maior parte da prata do Cerro Rico foi enviada para a Espanha metropolitana. Criou uma riqueza imensa e ajudou a transformar Potosí numa importante cidade do Novo Mundo, ao mesmo tempo que expôs gerações de trabalhadores ao trabalho forçado, ao mercúrio e a condições mortais. A continuação da exploração mineira, o afundamento do cume e o estatuto de sítio em perigo do Cerro Rico mostram que o legado da prata continua inscrito tanto na economia da cidade como na própria montanha.


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  • Cahokia: a grande cidade pré-colombiana da América do Norte

    Cahokia: a grande cidade pré-colombiana da América do Norte

    Cahokia era uma cidade indígena americana situada do outro lado do rio Mississippi, em frente à actual cidade de St. Louis, no que é hoje o sudoeste do Illinois. Existiu aproximadamente entre 1050 e 1350 d.C. e tornou-se o maior e mais influente povoamento urbano da cultura mississipiana. No seu apogeu, por volta de 1100 d.C., Cahokia abrangia cerca de 15,5 quilómetros quadrados, continha cerca de 120 estruturas de terra e poderá ter acolhido entre 15 000 e 20 000 habitantes.

    A sua história pertence à era pré-colombiana, o longo período da história indígena das Américas anterior a uma influência europeia significativa. Esta era incluiu povoamentos permanentes, cidades, agricultura, arquitectura monumental, grandes obras de terra e hierarquias sociais complexas.

    Uma cidade junto aos grandes rios

    Mapa histórico de Cahokia e povoações junto ao rio Mississippi
    Mapa histórico de Cahokia e povoações junto ao rio Mississippi. Foto: Thomas Hutchins / domínio público

    Cahokia ocupava uma posição estratégica perto da confluência dos rios Mississippi, Missouri e Illinois. Mantinha ligações comerciais com comunidades distantes.

    A cultura mississipiana desenvolveu sociedades avançadas numa grande parte do que é hoje o centro e o sudeste dos Estados Unidos, a partir de cerca de 1000 d.C. Esta cultura manifestava-se em povoamentos de regiões actualmente integradas no Centro-Oeste, no Leste e no Sudeste dos Estados Unidos.

    O comércio era uma das expressões deste alcance. Cahokia mantinha contactos com comunidades situadas desde os Grandes Lagos, a norte, até à costa do Golfo, a sul. Entre os bens trocados através destas ligações estavam cobre, sílex de Mill Creek, dentes de tubarão e conchas de búzio-relâmpago.

    A cidade tornou-se numa área habitada muito antes de Cahokia atingir o seu apogeu. Existem indícios de ocupação no local e nas suas imediações durante o período Arcaico Tardio, por volta de 1200 a.C. Cahokia, tal como é actualmente definida, foi povoada por volta de 600 d.C., durante o período Woodland Tardio.

    De pequenos povoamentos a metrópole

    Antes de 1000 d.C., as pessoas que viviam no American Bottom habitavam pequenos povoamentos de cerca de 50 a 100 pessoas, geralmente ocupados apenas durante cinco a dez anos. Contudo, no final do século X, uma comunidade nucleada considerável estendia-se por 35 a 70 hectares na própria Cahokia. Nessa fase, parecem ter vivido alguns milhares de pessoas na região do American Bottom.

    As populações do período Woodland Tardio em Cahokia eram agricultoras, embora o milho tivesse inicialmente apenas uma importância marginal. O milho foi introduzido com sucesso por volta de 900 d.C. Os indícios relativos às comunidades pós-mississipianas associadas à Confederação Illinois apontam para agricultura de milho, caça de bisontes e possivelmente queimadas controladas nas pradarias.

    Por volta de 1050 d.C., Cahokia viveu aquilo que a fonte descreve como um «Big Bang». Nessa altura, foram construídos os três recintos urbanos da cidade, St. Louis, East St. Louis e Cahokia. Foi imposto aos anteriores povoamentos Woodland um traçado urbano ordenado, orientado para norte ao longo da Grand Plaza, da Rattlesnake Causeway e de dezenas de montículos.

    Não se tratava apenas de uma aldeia maior. A reorganização implicou uma transformação mais ampla da região. A construção de montículos aumentou em toda a planície aluvial durante o século XI e surgiu também nas terras altas a leste. Alguns montículos foram construídos em locais de povoamentos anteriores, possivelmente por descendentes que sublinhavam posições ancestrais numa nova ordem social.

    Monumentos de terra e espaço planeado

    Praça relvada e escadaria do Monks Mound, em Cahokia
    Praça relvada e escadaria do Monks Mound, em Cahokia. Foto: QuartierLatin1968 / CC BY-SA 3.0

    Cahokia continha numerosos montículos de terra. O actual parque arqueológico estadual abrange 2200 acres, ou cerca de 9 quilómetros quadrados, e inclui aproximadamente 80 montículos construídos pelo ser humano. Contudo, a cidade antiga era muito maior do que o actual parque protegido.

    No seu apogeu, Cahokia incluía cerca de 120 estruturas de terra de diferentes dimensões, formas e funções.

    A construção de montículos no local começou durante o período de emergência da cultura mississipiana, por volta do século IX d.C. A edificação destes monumentos exigia escavação e transporte manual de terra.

    O povoamento revela também um planeamento deliberado. Cahokia incluía uma malha ordenada e elementos espaciais como a Grand Plaza e a Rattlesnake Causeway. Os povoamentos anteriores tinham sido progressivamente organizados segundo princípios cosmológicos, com ênfase nos pontos cardeais e em sectores sociais distintos. Os indícios de comunidades planeadas, de montículos e de sepulturas apontam para uma sociedade complexa e sofisticada.

    Os habitantes de Cahokia não deixaram registos escritos, para além de símbolos em cerâmica, conchas marinhas, cobre, madeira e pedra. De forma mais ampla, o estudo académico das culturas pré-colombianas baseia-se hoje sobretudo em métodos científicos e multidisciplinares.

    Apogeu, abandono e legado arqueológico

    Monte relvado e escadaria no sítio arqueológico de Cahokia
    Monte relvado e escadaria no sítio arqueológico de Cahokia. Foto: Aemurray wustl / CC BY-SA 4.0

    Por volta de 1100 d.C., Cahokia albergava dezenas de milhares de indígenas americanos que cultivavam, pescavam, comerciavam e construíam enormes montículos rituais. As estimativas situam a população entre 15 000 e 20 000 pessoas no apogeu da cidade.

    O nome original de Cahokia é desconhecido. Os montículos receberam mais tarde o nome «Cahokia», dado pela tribo Cahokia, um povo Illiniwek histórico que vivia na região quando os primeiros exploradores franceses chegaram no século XVII. Como isto aconteceu séculos após o abandono da cidade, a tribo Cahokia histórica não era necessariamente descendente dos habitantes anteriores da era mississipiana.

    Na década de 1400, Cahokia tinha sido abandonada devido a sucessivas cheias e secas associadas a alterações climáticas, que desempenharam um papel fundamental na partida dos habitantes da cidade. Os indícios arqueológicos indicam que a região de Cahokia era uma cidade fantasma na altura da chegada europeia.

    Actualmente, Cahokia Mounds é reconhecida como um Marco Histórico Nacional, um sítio estadual protegido e um dos 26 sítios do Património Mundial da UNESCO nos Estados Unidos.

    Cahokia desafia qualquer imagem limitada da América do Norte pré-colombiana. A sua posição fluvial, as extensas ligações comerciais, o espaço urbano planeado, a agricultura e os monumentais montículos revelam uma cidade de escala e organização notáveis.


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