Apesar de Portugal e Espanha partilharem mais de 1.200 km de fronteira, um lisboeta é, muitas vezes, geneticamente mais próximo de alguém da Irlanda ou do Reino Unido do que de alguém de Barcelona.
À primeira vista, parece um erro de geografia: o mesmo clima, a mesma península, séculos de dominação romana e muçulmana em comum. Mas o ADN conta uma história que os mapas não mostram.
Espanha: o “Portão Mediterrânico”
Durante milénios, a costa leste e sul de Espanha funcionou como um corredor mediterrânico. Por ali passaram e instalaram‑se:
- Gregos
- Fenícios
- Cartagineses
- Romanos
Estas sucessivas vagas criaram uma paisagem genética muito diversa, mas fortemente inclinada para o Mediterrâneo Oriental. Ao longo dos séculos, as populações das costas espanholas misturaram‑se com influências vindas do sul de França e Itália.
Portugal: a “Fortaleza do Atlântico”
Portugal, pelo contrário, olha para o Atlântico.
Durante o última idade do gelo, há cerca de 20.000 anos, o extremo oeste da Península funcionou como refúgio para caçadores‑colectores.
À medida que o planeta aquecia, estes grupos deslocaram‑se para norte ao longo da linha costeira, construindo aquilo a que os cientistas chamam a “Faixa Atlântica”.
Enquanto o interior de Espanha recebia migrações constantes vindas da Europa central e oriental, a faixa ocidental manteve‑se um bastião de linhagens atlânticas antigas.
Em termos simples: geneticamente, Portugal é mais “Atlântico” do que “Mediterrânico”. O país não cresceu apenas a partir da terra, cresceu a partir do mar.
Os Suevos: o pequeno reino que deixou uma grande marca
Depois da queda do Império Romano, no século V, vários povos germânicos invadiram a Península Ibérica. Quase toda a gente já ouviu falar dos visigodos, que acabaram por dominar quase toda a península e estabelecer a capital em Toledo.
Mas no noroeste, que é hoje o Norte de Portugal e a Galiza, instalou‑se outro povo, mais pequeno e frequentemente esquecido: os Suevos.
- Eram originários das regiões da atual Alemanha e Europa Central.
- Em vez de estarem sempre em movimento, como muitos outros grupos germânicos, criaram algo notável:
- O Reino Suevo, um dos primeiros reinos estáveis do pós‑Império Romano na Europa Ocidental.
- Capital: Bracara Augusta, a atual Braga.
Durante cerca de 170 anos (c. 409–585 d.C.), este reino manteve uma identidade distinta, separada do poder visigodo mais a sul. E essa separação deixou marca no nosso ADN.
Enquanto a influência visigoda se espalhou de forma mais difusa pela península, o legado dos suevos ficou concentrado no noroeste. No Norte de Portugal são detectáveis sinais claros dessa herança: A pele e olhos claros.
O legado inesperado dos mouros
Quando se fala de genética ibérica, surge inevitavelmente a pergunta:“E os mouros?”
Tanto Portugal como Espanha estiveram sob domínio de califados islâmicos durante vários séculos.
A partir de 711 d.C., populações do Norte de África e do mundo islâmico ocuparam grandes porções da península, e em algumas regiões o domínio prolongou‑se por mais de 700 anos.
Aqui surge um dado contra‑intuitivo:
Em muitas regiões, os marcadores genéticos norte‑africanos são hoje mais elevados em Portugal do que em partes de Espanha, incluindo zonas como a Andaluzia, que estiveram sob domínio muçulmano até 1492.
Porquê?
A explicação está menos no tempo que os mouros ficaram e mais no modo como saíram: A Reconquista.
Em Espanha: expulsão e substituição
À medida que reinos como Castela e Aragão avançavam para sul:
- As populações locais eram muitas vezes expulsas , sobretudo nas fases finais, como em Granada (1492).
- A Inquisição espanhola intensificou expulsões e conversões forçadas de muçulmanos e judeus ao longo dos séculos XV e XVI.
O resultado foi, em muitas áreas, uma redução mais marcada do legado genético direto de comunidades muçulmanas e judaicas.
Em Portugal: reconquista pela integração
Em Portugal, o processo foi, em termos gerais, mais gradual e integrador. À medida que a Coroa portuguesa avançava de norte para sul:
- Em vez de uma substituição total de populações, houve muita mistura entre:
- as populações locais de base ibero‑romana
- e as comunidades norte‑africanas e mouras estabelecidas
Isto é particularmente visível no Alentejo e no Algarve.
O resultado é uma assinatura genética “Mediterrâneo Ocidental” específica, bastante distinta do panorama de grande parte do leste de Espanha, onde a substituição foi mais intensa.
Em suma, os mouros não governaram apenas Portugal; tornaram‑se parte do seu tecido genético.
Diversidade interna em Portugal
Norte de Portugal
- Regiões como o Minho mostram forte influência céltica e germânica (sueva) e maior continuidade com populações antigas.
- São relativamente comuns os olhos azuis ou verdes, pele clara, e cabelo louro ou castanho claro, associados em parte à herança do norte da Europa.
Centro de Portugal
- Zonas como as Beiras e o Douro têm um perfil mais equilibrado, juntando influências célticas, romanas e vestígios mouros.
- Há grande variedade de aparências físicas, desde traços mais claros até características mais mediterrânicas, funcionando como zona de transição entre norte e sul.
Sul de Portugal
- No Alentejo e Algarve, nota‑se mais fortemente a influência de agricultores neolíticos, romanos, mouros e comunidades sefarditas (judaicas).
- São mais frequentes o cabelo escuro e olhos castanhos, reflectindo laços profundos com o Mediterrâneo e o Norte de África.
Tudo isto foi “fixado” por quase 900 anos de fronteiras estáveis, fazendo dos portugueses um grupo geneticamente distinto, apesar de partilharem a mesma península com os espanhóis.
Em termos simples: geneticamente, Portugal é mais “Atlântico” do que “Mediterrânico”. O país não cresceu apenas a partir da terra, cresceu a partir do mar.
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