Poucos objectos arqueológicos tornam o mundo antigo tão surpreendentemente próximo da tecnologia moderna como o mecanismo de Anticítera.
Recuperado de um naufrágio perto da ilha grega de Anticítera, este dispositivo de bronze corroído tem sido descrito como o mais antigo computador analógico conhecido.
Construído na Antiguidade, utilizava um sistema de engrenagens accionado manualmente para modelar ciclos celestes, prever eclipses e acompanhar posições astronómicas muito para além do presente.
Uma descoberta escondida num naufrágio
O mecanismo foi encontrado entre os restos de um navio romano de carga naufragado ao largo de Anticítera. Mergulhadores de esponjas da ilha de Symi descobriram o naufrágio no início de 1900, e os artefactos foram recuperados durante uma expedição que envolveu a Marinha Real Helénica, em 1900 e 1901. O naufrágio encontrava-se perto do cabo Glyphadia, a uma profundidade indicada como 45 metros numa fonte e aproximadamente 43 metros noutra.
Os mergulhadores recuperaram muitos objectos, incluindo estátuas de bronze e mármore, cerâmica, objectos de vidro, jóias, moedas e o próprio mecanismo. O dispositivo foi recuperado em 1901, provavelmente em Julho, embora permaneça desconhecido como foi parar ao navio de carga.
Inicialmente, não parecia uma máquina sofisticada. Após quase dois mil anos submerso, o objecto estava fortemente corroído e coberto de incrustações, assemelhando-se a uma pedra esverdeada. Foi inicialmente eclipsado pelo entusiasmo em torno das estátuas e de outros achados mais imediatamente reconhecíveis.
Um momento decisivo ocorreu em 17 de Maio de 1902, quando o arqueólogo Valerios Stais e o seu primo, o político Spyridon Stais, repararam que um dos fragmentos continha uma roda dentada. Valerios Stais pensou inicialmente que poderia tratar-se de um relógio astronómico, embora muitos estudiosos considerassem tal dispositivo demasiado avançado para o período representado pelo naufrágio.
O filólogo alemão Albert Rehm interessou-se pelo objecto e foi o primeiro a propor que se tratava de uma calculadora astronómica.
Uma máquina compacta de engrenagens de bronze
O mecanismo de Anticítera estava originalmente alojado numa caixa com estrutura de madeira, cujas dimensões globais são incertas, mas que foi descrita como tendo 34 centímetros por 18 centímetros por 9 centímetros. Foi recuperado como um único bloco e posteriormente separado em três fragmentos principais. Os trabalhos de conservação acabaram por produzir 82 fragmentos distintos.
Quatro fragmentos contêm engrenagens, enquanto inscrições surgem em muitos outros. A maior engrenagem tem cerca de 13 centímetros de diâmetro e tinha originalmente 223 dentes. Todos os fragmentos conhecidos estão guardados no Museu Arqueológico Nacional de Atenas, juntamente com reconstruções e réplicas destinadas a mostrar o possível aspecto e funcionamento do dispositivo.
O mecanismo é geralmente descrito como um planetário mecânico grego antigo, um modelo do Sistema Solar, accionado à mão. É também chamado o primeiro computador analógico conhecido.
A sua aparente complexidade é central para a sua importância. Máquinas de complexidade semelhante só voltaram a surgir no século XIV, na Europa ocidental. Uma fonte em língua portuguesa compara este reaparecimento posterior de uma complexidade comparável aos relógios astronómicos de Richard de Wallingford e Giovanni de’ Dondi.
Ler a máquina através da investigação moderna

Durante décadas, a compreensão do mecanismo permaneceu incompleta. O historiador britânico da ciência e professor da Universidade de Yale Derek J. de Solla Price interessou-se por ele em 1951. Em 1971, Price e o físico nuclear grego Charalampos Karakalos criaram imagens de raios X e raios gama dos 82 fragmentos, e Price publicou as suas conclusões em 1974.
O trabalho de Price ajudou a estabelecer o mecanismo como uma calculadora astronómica altamente complexa. Em 1958, examinou-o e considerou que poderia indicar acontecimentos astronómicos passados ou futuros, incluindo a próxima lua cheia. Observou que as inscrições no mostrador se referiam a divisões do calendário, como dias, meses e signos do zodíaco.
Investigações posteriores trouxeram provas ainda mais claras. Em 2005, uma equipa da Universidade de Cardiff, liderada por Mike Edmunds, utilizou tomografia computadorizada de raios X e digitalização de alta resolução para observar o interior dos fragmentos cobertos por crosta e ler inscrições ténues da caixa exterior.
Estas análises sugeriram que o mecanismo tinha 37 engrenagens de bronze interligadas. A investigação mostrou que podia acompanhar os movimentos do Sol e da Lua através do zodíaco, prever eclipses e modelar a órbita irregular da Lua.
As análises também indicaram uma característica muito específica desse modelo lunar: a velocidade da Lua é maior no perigeu do que no apogeu. Este movimento tinha sido estudado no século II a.C. pelo astrónomo Hiparco de Rodes, que poderá ter sido consultado durante a construção do mecanismo.
Inscrições decifradas mais aprofundadamente em 2016 revelaram números ligados aos ciclos sinódicos de Vénus e Saturno. Há também especulação de que uma parte em falta do mecanismo poderia ter calculado as posições dos cinco planetas clássicos.
Ciclos celestes, eclipses e jogos

O mecanismo de Anticítera não era apenas uma demonstração de engrenagens.
Investigação afirma que rodar um botão activava engrenagens de, pelo menos, 30 rodas dentadas e accionava três mostradores em ambos os lados do aparelho. Isto permitia ao utilizador prever ciclos astronómicos, incluindo eclipses, em relação ao ciclo quadrienal dos Jogos Olímpicos e de outros jogos pan-helénicos.
Estes jogos eram habitualmente utilizados como base cronológica. O mecanismo ligava, assim, a observação celeste, a organização do calendário e a medição do tempo na vida pública.
As capacidades do dispositivo mostram até que ponto a observação, o cálculo e a vida prática podiam cruzar-se. As suas engrenagens transformavam movimentos recorrentes no céu num instrumento que podia ser accionado manualmente e lido por meio de mostradores, inscrições e ciclos.
Datação de um instrumento extraordinário

Acredita-se que o mecanismo tenha sido concebido e construído por cientistas helenísticos, mas a sua data exacta continua a ser debatida. As datas propostas incluem cerca de 87 a.C., um período entre 150 e 100 a.C. e 205 a.C.
Em 2022, investigadores propuseram que a sua data de calibração inicial, e não a data de construção, poderia ter sido 23 de Dezembro de 178 a.C. Outros especialistas propuseram 204 a.C. como uma data de calibração mais provável.
Estas datas divergentes não diminuem a importância do mecanismo. Quer seja considerado um planetário mecânico, uma calculadora astronómica ou o primeiro computador analógico conhecido, continua a ser prova de uma abordagem sofisticada à modelação dos ritmos celestes no mundo grego antigo.
O mecanismo de Anticítera sobrevive apenas em fragmentos, mas esses fragmentos revelam um dispositivo construído para tornar os céus legíveis. As suas engrenagens de bronze ligavam os movimentos do Sol e da Lua, os eclipses, as posições zodiacais e os ciclos atléticos numa única máquina accionada à mão, preservando um capítulo extraordinário da história do cálculo.
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